Quando a gratidão organiza a casa

Quando a gratidão organiza a casa
Existe um tipo de gratidão que é barulhenta. Ela se anuncia, se explica, se publica. Mas existe outra, mais silenciosa. Uma gratidão que não pede plateia, pede presença. É essa que organiza a casa. Não a casa de fora, mas a de dentro. A que sustenta os gestos, as escolhas, os limites e até os silêncios. Gratidão, nesse lugar, não é uma resposta emocional ao que deu certo. É uma postura espiritual diante daquilo que já foi confiado às nossas mãos. Quando agradecemos, paramos de disputar o que não nos cabe. Quando agradecemos, reconhecemos que nem tudo precisa ser conquistado e algumas coisas já foram entregues e as outras já temos fé que irá acontecer. Quando agradecemos, desaceleramos o passo para perceber o que está ali e muitas vezes não enxergamos. Talvez por isso a gratidão sempre tenha sido uma prática doméstica. Ela acontece na mesa posta, no cuidado com o detalhe, no zelo com o que permanece. Ela não precisa de anúncio. Precisa de constância. De permanência. Tenho aprendido que antes de criar algo novo, é preciso reconhecer o que já existe. Antes de propor, é preciso agradecer. Antes de oferecer, é preciso habitar. Algumas práticas nascem assim: discretas, quase invisíveis. Elas não chegam prontas, nem pedem urgência. Elas se constroem aos poucos, enquanto a casa vai sendo colocada em ordem. Hoje, o convite não é para fazer mais. É para perceber melhor. Talvez a gratidão seja isso: não um ato isolado, mas um jeito de morar no que Deus já confiou.

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