Jeremias 18

Há passagens da Bíblia Sagrada que não se leem com pressa.
Elas pedem tempo. Pedem pausa. Pedem silêncio.
Jeremias 18 é uma delas.
O profeta não recebe uma explicação longa. Ele é convidado a descer à casa do oleiro. A cena fala por si. Um homem, o barro, as mãos. Um vaso que não dá certo. Um recomeço que acontece sem drama. Sem culpa. Sem pressa.
Nada ali é forçado.
O barro não discute.
O oleiro não desiste.
O processo segue.
Há algo profundamente consolador nessa imagem. Ela revela um Deus que não se apega à forma anterior quando ela já não sustenta o propósito. Um Deus que não se ofende com o refazer. Que não trata o recomeço como fracasso, mas como continuidade.
O Espírito de Deus age assim: atento, presente, silencioso. Ele não acelera o que precisa amadurecer. Não preenche o que precisa de espaço. Não explica tudo, apenas conduz.
O texto não descreve barulho.
Não descreve multidão.
Não descreve urgência.
Jeremias 18 acontece num ambiente simples, quase escondido. Como se Deus estivesse dizendo que algumas transformações importantes não precisam de plateia. Precisam de disponibilidade.
Há fases em que a vida parece diminuir de volume. Coisas saem do lugar. Outras perdem o sentido. E, à primeira vista, parece perda. Mas, à luz desse texto, é só o oleiro reorganizando o barro.
O silêncio, nesses momentos, não é abandono.
É trabalho em andamento.
O oleiro não conversa com o barro.
Ele toca.
E há algo profundamente espiritual nisso. Porque nem toda mudança vem por entendimento. Algumas vêm por rendição. Por permitir que as mãos certas conduzam aquilo que já não conseguimos sustentar sozinhos.
Não precisamos ter medo do que precisa ser desfeito.
Deus nao quer perfeição, porque Ele nos enxerga muito além do agora.
Jeremias 18 não promete um vaso bonito.
Promete um vaso possível.
Possível nas mãos certas.
Possível no tempo certo.
Possível do jeito que precisa ser.
E talvez seja isso que esse texto nos ensine com tanta delicadeza: quando tudo parece quieto demais, quando a forma antiga já não serve e a nova ainda não apareceu, o oleiro continua ali.
Trabalhando.
Com cuidado.
Com intenção.
Mesmo no silêncio.
Como é bom permitir o agir de Deus e nos permitirmos sermos moldados por quem nos formou do ventre e conhece o nosso futuro.
Obrigada, Jesus!